sexta-feira, 23/10/2026

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A realidade de viver próximo a um data center nos Estados Unidos: desafios e peculiaridades do cotidiano.

A ascensão da inteligência artificial está impulsionando uma frenética corrida global pela construção de data centers, essenciais para o armazenamento e processamento de dados que alimentam desde buscas na internet até sofisticadas ferramentas de…

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A ascensão da inteligência artificial está impulsionando uma frenética corrida global pela construção de data centers, essenciais para o armazenamento e processamento de dados que alimentam desde buscas na internet até sofisticadas ferramentas de IA. Contudo, para os moradores que residem nas proximidades dessas gigantescas estruturas, as inovações tecnológicas trazem uma série de preocupações.

No condado de Loudoun, na Virgínia, Estados Unidos, onde se localiza o maior número de data centers do mundo, a situação se agrava. Uma recente reportagem do programa Fantástico revelou que a região abriga mais de 200 dessas instalações, com novas construções surgindo a cada dia nos últimos 16 anos. Para os residentes, essa expansão incessante se traduz em uma realidade alterada e, muitas vezes, insuportável.

Os data centers, considerados a espinha dorsal da inteligência artificial, requerem vastas quantidades de energia e água para operar. Com o crescimento desses complexos, muitos deles estão se aproximando das áreas residenciais, gerando ruídos constantes e poluição. Lindsay, Greg e Jessica, moradores que vivem em frente a um novo centro, compartilham como suas vidas mudaram drasticamente desde a inauguração do empreendimento em 2022.

O complexo em questão é notório por gerar sua própria energia através de turbinas a gás natural e geradores a diesel, resultando em um zumbido incessante que faz parte do cotidiano dos vizinhos. “Você ouve esse zumbido? É constante”, relata uma das residentes, que também menciona a presença de fumaça escura durante a operação dos geradores. Outras vozes se somam a essa preocupação: “Quando você sai, sente o gosto de diesel no ar”, afirma uma moradora, enquanto outra descreve sua experiência de ter que deixar sua casa devido ao barulho insuportável.

Os impactos ambientais da operação dos data centers também são motivo de apreensão. Um estudo de Harvard, citado na reportagem, sugere que a poluição gerada por um único centro pode custar até US$ 99 milhões por ano em internações e mortes prematuras. Além disso, a crescente demanda por energia elétrica exige grandes investimentos em infraestrutura, o que pode resultar em novas linhas de alta tensão atravessando o estado da Virgínia.

A resistência local, liderada por Vicky Woo, que há mais de 20 anos reside na região, se intensifica. Ela questiona a segurança da instalação de uma torre de transmissão a poucos metros de sua casa, destacando os riscos associados. “Estamos dentro da área de queda. Se uma torre de 56 metros cai numa tempestade, quem vai assumir a responsabilidade?”, indaga. Para Vicky, o problema não é a presença dos data centers em si, mas sua proximidade com as residências.

A questão não é exclusiva dos Estados Unidos. O Brasil, por sua vez, também está se preparando para um cenário semelhante. O programa Redata, recentemente aprovado, oferece incentivos fiscais para atrair investimentos em data centers, sob a condição de que utilizem energia renovável e implementem medidas de redução de consumo de água. No entanto, a falta de regulamentação sobre distâncias mínimas de áreas residenciais e controle de emissões ainda gera incertezas.

Enquanto governos e empresas debatem o futuro da inteligência artificial, os moradores de Loudoun lidam com as consequências diretas desse avanço. “Tenho quatro netos e me preocupo com o futuro. Que mundo eu vou deixar para eles?”, questiona uma residente, refletindo a angústia de muitos que vivem à sombra dessas novas tecnologias.